CORDEL


PEQUEI, PADRE…

(Baseado da fotonovela original de Mary Lee).

Uma cidade pequena,
de beleza, uma aquarela,
foi cenário de um romance
entre um jovem e uma donzela
e coloriu de amor
a sua Cordel Novela.

São Pedro de Aldeia é
a cidade que falei,
de natureza frondosa,
e mais detalhes darei.
E é lá que a menina Dulce
dissera ao padre: _pequei…

Padre Geraldo é um homem
cordial e respeitado,
e numa tarde de sol,
na igreja ele sentado
ouvia de uma ovelha
o que era confessado.

Nesse momento aproxima-se,
assustado, o sacristão,
chamando padre Geraldo,
pois o espera no saguão
D. Mariana que
parece ter aflição.

Padre Geraldo solícito
avisa: _Preciso ir.
Você, ovelha, eu já disse
por onde deve seguir.
Agora na sacristia
alguém deseja me ouvir.

Ao chegar na sacristia
olha um pouco mais de perto
e vê D. Mariana
dizendo: _Está tudo certo.
Somente tenho um problema
que é meu sobrinho Gilberto.

O padre já prevenido
disse: _A senhora falhou
dando excesso de mimo
ao sobrinho que abraçou.
Desde que perdeu os pais,
foi assim que o criou.

Deixando então a igreja
os dois iam conversando
sobre os problemas do jovem,
com quem ele estava andando
e na sua criação
o que mais estava errando.

Pouco distante dali
um homem atropelado
agonizava no chão
totalmente ensangüentado.
O motorista fugiu
deixando o carro. Roubado.

O bombeiro socorrendo,
perguntou se alguém viu.
Disseram: _E nem precisa,
só tem um que corre a mil
aqui em nossa cidade
num comportamento hostil.

O padre foi conversando
e acompanhando a senhora,
mas o rapaz já estava
em casa naquela hora.
E quando os dois chegaram
perguntaram sem demora:

_Gilberto, nós precisamos…
Disse Gilberto: _Já sei.
Estão pensando que foi
logo eu que atropelei.
Mas se vocês me acusam
então esclarecerei.

_O responsável está preso
e não mora na cidade.
_Fico feliz, disse o padre,
por sua civilidade,
já que muitos o acusam
de tamanha hostilidade.

Em uma casa afastada
onde mora D. Anita,
Dulce, a filha querida,
muito formosa e bonita,
veste-se para uma festa
deixando a mãe aflita.

_Eu confio em você, Dulce,
mas hoje, esses rapazes…
_Ora, mãe, quase não saio
e sei do que são capazes.
Mas hei de me proteger
quando forem mais audazes.

_Mas fico preocupada;
eduquei-a com recato.
_Mas desde esse tempo, mãe,
existe enorme hiato.
Eu não sou assim tão boba
de apaixonar por gaiato.

Suzana, amiga de Dulce,
passou e veio busca-la,
com D. Anita olhando
e pensativa na sala,
rezando com a voz trêmula
que gaguejava na fala.

Chegando então na festinha
temos alguns convidados:
Gilberto com a namorada
Sônia pertinho, atados.
Porém os olhos do moço
procuram Dulce nos lados.

_É ofensivo o que
está fazendo comigo.
_Calma meu bem, não me trate
mal e nem me dê castigo,
mas eu não posso viver
a vida toda contigo.

Gilberto então larga Sônia
e da moça chega perto.
_Admiro sua beleza
o meu nome é Gilberto.
Você quer dançar comigo?
Seu nome é Dulce, estou certo?

_Levantei-me sem sentir
e devia preveni-lo;
danço mal, não tenho jeito,
nunca tive esse estilo.
_Deixa então eu te guiar
de um modo muito tranqüilo.

_Creio que já lhe disseram
e avisaram que não presto.
_Eu não posso dizer não
mas também eu não atesto.
Tirou-me para dançar
e eu gostei desse seu gesto.

Durante o resto da noite
Dulce formou par constante
com Gilberto, para escândalo
dos presentes, e galante,
trocou um beijo gostoso
de um jeito apaixonante.

Quando sua namorada
Sônia, viu aquele ato
chorou copiosamente
por amar aquele ingrato
que dava à outra donzela
um amável e doce trato.

No dia seguinte Gilberto
foi alvo de gozação
porque Dulce era sobrinha
do padre e a diversão
daqueles marmanjos era
gozar da situação.

Durante toda a semana
Dulce evitou o rapaz,
mas de tocaia Gilberto
se mostrou muito eficaz
e encontrou a garota
que vivia em boa paz.

Pegou Dulce pelo braço
de modo bem apertado,
dizendo: _Você não quer
ao menos olhar pro lado?
Pratique uma boa ação,
recupere um transviado.

_Não sirvo para você;
é melhor deixar assim.
O que não foi começado
não encontra o seu fim,
e nem deixa uma flor
murchando no seu jardim.

Porém chegou aos ouvidos
de D. Anita a festa
e tudo o que se passou
com o rapaz que não presta.
Sendo assim teve com Dulce
uma prosa bem honesta.

_Não me oponho a que você
namore qualquer pessoa,
mas lembre que somos pobres
mas de dignidade boa
aqui nesta região
que compreende a lagoa.

Durante a noite o padre
Geraldo e D. Anita
conversaram sobre Dulce
que se encontrava aflita,
não dando conta portanto
da inesperada visita.

Enquanto isso Gilberto
está sendo aborrecido;
telefonemas e cartas
o deixam bem aturdido,
chamando o jovem rapaz
de transviado bandido.

O rapaz anda tristonho
e só busca a solidão,
talvez querendo ouvir
a voz do seu coração
dizendo-lhe que a moça
é sua nova paixão.

Enquanto Sônia esperava
pelo infiel namorado,
vê Paulo se aproximar
este sim, apaixonado
pela moça, à beira d´água
com o sol do outro lado.

Paulo tenta convencer
que sua paixão intensa
os tornariam felizes,
se Sônia estiver propensa
a aceitar um coração
que lhe trará recompensa.

Paulo percebe que Sônia
já não poderá conter
as lágrimas e afasta-se
porque também não quer ver
a sua amada garota
chorar de tanto sofrer.

Enquanto isso Gilberto
plantado, fica à espera
em frente à casa de Dulce
continuando a paquera
esperando que a moça
mostre-se menos severa.

Dentro da casa, o padre
aconselha a sobrinha
que faz a revelação
já no final da tardinha:
_Eu amarei o rapaz
para toda a vida minha.

Gilberto então vai embora
cansado de esperar
indo ao encontro de Sônia
que aguardava o seu par
dizendo: _Me atrasei,
mas queira me desculpar.

Juntos, andando na praia,
Sônia sente a indiferença,
não vendo mais em Gilberto
a mais pequena presença
e assim termina o namoro
sem nenhuma desavença.

Gilberto tornou-se agora
um homem muito feliz,
pois saiu de um namoro
sem nenhuma cicatriz
e Dulce o aceitou
da maneira que ele quis.

O namoro proibido
corre frouxo e acelerado
e apenas aqueles dois
não acham que é pecado
a união de uma moça
com um garoto transviado.

Resiste enquanto pode
às carícias, mas se entrega,
deitados junto à lagoa,
não vê nada, está cega,
e o seu coração pulsando
aquele amor não se nega.

Mas chegando em sua casa
um estranho sentimento
de enorme culpa mistura
com grande arrependimento
e ao se chamar de louca
sua mãe ouve o lamento.

Dulce diz que não é nada,
que apenas está doente,
e pensativa reflete
com a frieza da mente:
_Prefiro esperar que ele
torne-se agora presente.

Para complicar o caso
Dona Anita adoece,
e Dulce não sai do lado
da mãe, e com muita prece
pede ao bom Deus o melhor,
porque sua mãe merece.

E assim, cuidando da mãe,
Dulce fica recatada
aos aposentos do lar
e sem pensar em mais nada
torna-se uma enfermeira
da sua mãezinha amada.

Durante a ausência de Dulce,
Sônia procura Gilberto
e este enfraquecido
e sem saber o que é certo
deixa a menina chegar
perigosamente perto.

Divertem-se na lagoa,
mas Gilberto pensativo
tem o coração distante.
É o sinal indicativo
que Sônia apenas será
um pequeno curativo.

No entanto o estado
de D. Anita piora
deixando Dulce aflita
porque a mãe não melhora,
e pressentindo o pior
chama o seu tio na hora.

Parece que já sabendo
o que pode acontecer,
assim que chega, o padre,
pega sua bíblia pra ler,
mas antes de começar
vê D. Anita morrer.

Restando somente o tio,
àquela pobre donzela
sente as lágrimas escorrerem
naquela face tão bela
apenas iluminada
na tênue luz de uma vela.

A vizinhança sabendo
vai correndo socorrer
tentando diminuir
o amargo do sofrer
que é ver um ente querido
nos seus braços falecer.

A jovem sai à procura
de um médico legista
e de longe vê Gilberto
de uma forma imprevista
que lhe fala: _Agora não
vou conversar, não insista.

Dulce tenta explicar
a sua breve ausência,
a morte de sua mãe,
e nem sua triste aparência
demove aquele rapaz
de ouvir sua clemência.

Gilberto larga a menina
chorando e desesperada,
coberta de solidão
com a perda da mãe amada
na tarde que se ocultava
esmaecida e calada.

Gilberto volta pra casa
mas vê Paulo aproximar.
Este de forma agressiva
começa a questionar
sobre sua amiga Sônia
que o outro diz não amar.

_Você só quer a menina
para sua distração.
_Abaixe logo esse dedo
e preste muita atenção,
porque aquela maldita
não vale nem um tostão.

Ouvindo a palavra suja
e enormemente ofensiva,
Paulo vibra uma bolacha
em Gilberto e ativa
uma briga contundente
porém nada produtiva.

Ao fundo, os belos moinhos
das grandiosas salinas
presenciam a tosca cena
e os chutes das botinas,
socos e chaves de braço,
e até mordidas caninas.

Passando pelo local
e olhando os dois rapazes,
Padre Geraldo se apressa
em separar os vorazes
brigões e logo dá ordem
para que façam as pazes.

Com sua força moral
não aprova o ocorrido
e dá um sermão em Paulo
e no outro envolvido,
tirando a razão dos dois
e não tomando partido.

Gilberto segue pra casa.
Só então a sua tia
conta sobre D. Anita
que morreu naquele dia.
O rapaz muito espantado
muda de fisionomia.

Gilberto decepcionado
com a sua atitude,
por ter desprezado Dulce
de forma hostil e rude
vê a dimensão do fato
em toda sua amplitude.

_Ela é boa, eu é que
não presto. _Não fique assim,
sei que bem no fundo o seu
coração não é ruim.
Procure a moça e resolva
este problema, enfim.

_Ela é uma boa menina.
_A senhora ficaria
feliz se eu me casasse?
_Claro, e sei que seria
muito feliz com a moça
que pra sempre o amaria.

No entanto a doce menina
vai em busca de um emprego
em uma cidade vizinha
para que tenha sossego
e seu filho ao nascer
um pouquinho de aconchego.

No seu emprego recebe
o apoio do patrão
que lhe concede um quarto,
mas parecendo alçapão
o ambiente transforma
seus sonhos em confusão.

E Dulce, atordoada,
é perseguida nos sonhos
por tudo que fez na vida,
em pesadelos medonhos
que transformam os seus dias
em capítulos tristonhos.

Durante meses e dias
infeliz e atormentada,
trabalhando e sofrendo,
severamente humilhada,
ela vê o tempo passar
já quase resignada.

Finalmente, numa noite,
Dulce busca um hospital
e ali no salão dos pobres
o seu filho dá o sinal
que deseja escapulir
do seu ventre maternal.

Sensível e fraquejada,
ao tio escreve uma carta
contando o nascimento
do menino, numa quarta.
E assim o padre se apressa
antes que a sobrinha parta.

Já chegando ao hospital,
o padre, contemplativo,
oferece seu apoio
e de modo imperativo
a sobrinha agradece
ajeitando o curativo.

O tempo porém caminha
marchando firme pra frente,
moldando com habilidade
a vida daquela gente
que ao passar de três anos
parece uns dias somente.

Giovana, filha de Dulce
passa os dias no internato,
mas padre Geraldo é
quem toma conta de fato,
que muitos até pensaram
na quebra do celibato.

Giovana passa seus dias
na guarda do tio amado
mas pergunta pela mãe
a cada dia passado,
sem compreender direito
se há algo de errado.

O padre bem desconfia
quem seja o pai da criança
mas não deixa alimentar
na menina a esperança
enquanto ele não descobre
tudo com mais segurança.

Gilberto segue sua vida
insossa e sem emoções
mas constantemente é alvo
de benditas orações
que o destino se encarrega
de unir os três corações

Pensativo numa praça,
num dia feio e cinzento,
Gilberto nem desconfia
que ao fazer o movimento
do pescoço para o lado
verá seu lindo rebento.

Vê a batina do padre
mas o seu olhar caminha
quase que instintivamente
para a doce criancinha
que lhe oferece a bola
que trazia na mãozinha.

E assim o padre se afasta
para então se concentrar
enquanto a menina achou
um moço para brincar
sem saber que é seu pai
bem na frente do olhar.

De repente uma freada
de pneus queimando o asfalto
interrompe a brincadeira
pelo seu barulho alto.
Era o carro dos amigos,
um Gordinni azul cobalto.

Descendo dois transviados,
já chegando bem mais perto,
com trajes muito arrogantes,
debochando de Gilberto,
chamam então o velho amigo
para o seu caminho incerto.

Em inesperada atitude
o rapaz negligencia
e fica com a menina,
que assim o acaricia,
enquanto padre Geraldo
no fundo se delicia.

Seus amigos o deixaram,
saindo desembestados,
costurando pelas ruas,
deixando muito assustados
os motoristas dos carros
que estavam sendo fechados.

Provocaram um acidente
e ganharam a estrada,
mas a morte os esperava
numa curva bem fechada,
despencando num barranco
de forma precipitada.

D. Mariana, a tia,
recebe a horrível notícia
pensando que o sobrinho
estava nessa imperícia,
porém sente em seus cabelos
doce e suave carícia.

_Oh, Gilberto, meu querido!
_Não se preocupe, titia.
Estive à tarde com um anjo
que brinquei em demasia
e se não fosse por ele
aqui não mais estaria.

As semanas então correm.
Gilberto segue tristonho
pensando nos seus amigos
e naquele fim medonho;
e que o fato de estar vivo
assemelha-se a um sonho.

Ao encontrar-se com Sônia,
fala com sinceridade,
não querendo ser cruel,
mas com amabilidade,
que não quer nem brincadeira,
apenas uma amizade.

_Não tem problema, Gilberto,
não guardo nenhum rancor,
mas só eu posso sentir
todo o tamanho da dor
que aperta meu coração
com a falta do seu amor.

Sônia vê neste momento
que apenas chegou a hora
do seu Gilberto seguir
seu caminho sem demora
despedindo-se infeliz
do amor que foi embora.

Porém fica muito estreita
aquela grande amizade
entre a menina Giovana
e o rapaz que na verdade
é o seu verdadeiro pai
ainda jovem de idade.

Reabre sua oficina
e segue o caminho reto
que a novidade se espalha
como o vôo de um inseto
chegando aos doces ouvidos
de quem lhe tem muito afeto.

Dulce prepara sua volta
para a cidade natal
onde sua filha e o tio
de longe fazem sinal
ao ver o barco chegando
já perto do litoral.

Ao descer da embarcação,
mãe e filha se abraçam
num aperto caloroso
que os braços ultrapassam
aqueles corpos sedentos
que agora se entrelaçam.

Caminhando pela praia
e aconselhando a sobrinha
dos perigos de não ser
casada, e estar sozinha
e não afrontar ninguém
com sua doce filhinha.

A volta de Dulce paira
e dá sabores ao vento
que entrega a notícia
com enorme encantamento
a Gilberto que esperou
tanto por esse momento.

Porém a donzela pensa
em partir pra uma cidade
grande em que possa ter
com a filha a privacidade
de viver a sua vida
com paz e tranqüilidade.

Mas o padre a aconselha
dizendo: _Minha sobrinha,
o pai de Giovana é
o Gilberto, e a pobrezinha
tem o dever de saber
enquanto é uma criancinha.

_É verdade, o pai é ele
e não posso esconder.
Preciso pensar num modo
em que possa esclarecer
e apresenta-lo à Giovana
para ele conhecer.

No dia seguinte, Dulce,
sentada, olhando a lagoa
pensa exaustivamente
naquela outra pessoa
enquanto seus olhos miram
as formas de uma canoa.

As pequenas ondas quebram
empurradas pelos ventos
e mansamente Gilberto
em suaves movimentos
aproxima-se de Dulce
trazendo arrependimentos.

_Gilberto, já era tempo
de conhecer a verdade.
A nossa filha já tem
três aninhos de idade,
e falo isso pra você
com muita sinceridade.

_E onde está minha filha?
_Não acha que é um pouco tarde
me fazer esta pergunta?
_Não quero fazer alarde,
mas se eu não perguntar
vai me chamar de covarde.

_Sou a mãe e vou leva-la
para longe dessa gente.
_Por que então não casamos?
Só assim serei contente,
eu, você e nossa filha.
Peço-te insistentemente.

_Oh, Gilberto, eu te amo.
_Também te amo, querida.
Sou infeliz desde o dia
daquela sua partida,
e agora seremos três
vivendo uma só vida.

E naquele dia claro,
com lagoa dourada,
Gilberto selou um beijo
na sua doce amada
deixando a natureza
ainda mais encantada.

No outro dia, Gilberto
teve uma enorme emoção
quando ficou cara a cara
com fruto da união
ao encontrar sua Giovana
bem ao alcance da mão.

Com o apoio do padre
e a união aprovada,
Dulce e Gilberto casaram
numa igrejinha rosada
onde o céu e a lagoa
a deixava emoldurada.

FIM
J. Victtor
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LAMPIÃO, O CAPITÃO DO CANGAÇO

Gonçalo Ferreira da Silva

Só a alma luminosa
do homem missionário
ouve a voz interior,
e tendo o dom necessário
faz poesia da seiva
de um caule imaginário.

Poeta não ouve vozes
só com humanos ouvidos,
ausculta a alma das coisas
com diferentes sentidos
para os que não são poetas
ainda desconhecidos.

Este poema que fala
de cangaço e de sertão
é, apenas, à cultura
uma contribuição,
um documentário vivo
da vida do Lampião.

Por ser uma obra feita
à luz da verdade viva,
mostra a face nobre, humana
e até caritativa
de Lampião, se tornando
a menos repetitiva.

Qual o homem mais famoso
da nossa grande nação?
Vargas não nos é estranho
porém sem comparação
internacionalmente
é sem dúvida o Lampião.

À feição de pedestal
tinha o serrote em seu pico
longevo angico, havia meses
não via de chuva um tico
e a cauã cantava triste
no último galho do angico.

José Ferreira casara
ainda com pouca idade
com a esbelta Maria
Vieira da Soledade
num clima de alegria,
de paz e tranqüilidade.

O século passado estava
dando sinais de cansaço,
José e Maria presos
por matrimonial laço
em breve seriam pais
do grande rei do cangaço.

No dia quatro de junho
de noventa e oito, a pino
estava o Sol, e Maria
dava à luz um menino
que receberia o nome
singular de Virgulino.

Em Floresta do Navio
nasceu e foi registrado,
no solo pernambucano
e ali foi batizado
bem distante de Recife
a capital do Estado.

O velho cônego e vigário
Joaquim Antonio Siqueira
batizou solenemente
o Virgulino Ferreira
filho de José Ferreira
e de Maria Vieira.

Depois daquela bendita
e cristã solenidade
os padrinhos Pedro Lopes
e Maria Soledade
desejaram ao afilhado
fortuna e felicidade.

Os seus bisavós paternos
segundo contam alguns
velhos historiadores
foram roceiros comuns
naturais do Ceará
dos lados de Inhamuns.

Venâncio Barbosa afirma
num pequeno trecho em prosa
que seus ancestrais vieram
da família dos Feitosa
sua bisavó paterna
era Maria Jacosa.

Dos avós paternos, ele
tem idéias menos vagas,
moravam em “Situação”
nas mesmas agrestes plagas
E eram Antonio Ferreira
e dona Maria das Chagas.

Os Montes e os Feitosa
viviam em pé de briga
por problemas de fronteira
numa rixa tão antiga
que eternizaram aquela
bruta e secular intriga.

José Ferreira da Silva
e Maria Soledade
pacatos e estimados
em sua localidade
não eram ricos mas tinham
pequena propriedade.

Quando José se tornou
compadre de Saturnino
já quatro filhos contava
pois além de Virgulino
já tinha também Antonio,
Ezequiel e Livino.

A terra de Saturnino
era na mesma comarca
fronteiriça à de José
cujas reses tinham a marca,
as iniciais do velho
e honrado patriarca.

Tinha o velho Saturnino
um filho muito estimado
José, que tomava conta
da criação, do cercado,
dos rebanhos e até mesmo
da compra e venda de gado.

Até que um dia chuvoso
José achou pendurado
no pescoço de uma rês
por Virgulino amassado
chocalho de Saturnino
quebrado, inutilizado.

Daí pra frente as famílias
tão fraternalmente unidas
viram de tal amizade
as bases estremecidas
arranhões que se tornaram
as mais profundas feridas.

José Saturnino teve
a reação fulminante
pois amassou os chocalhos
do insignificante
gado dos Ferreira, dando
uma resposta arrogante.

José Ferreira da Silva
foi ao compadre avisar
que longo plano de paz
era preciso formar
para que uma desgraça
possível fosse evitar.

Saturnino grave e sério
disse: – Compadre, vocês
amassaram um chocalho
no pescoço de uma rês
ninguém teve a consciência
de ser comigo cortês.

E ao compadre José
foi o chocalho exibindo
rangendo os dentes de ódio,
sinistramente sorrindo
dando uma prova eloqüente
de que não estava mentindo.

José Ferreira não tendo
argumento convincente
girou sobre os calcanhares
retornando prontamente
à sua casa a fim de
pensar mais maduramente.

Reunindo os filhos fez
demorada exposição,
analisando com calma
a dura situação
chamou Cornélio Soares
para uma mediação.

Cornélio então convocou
à casa de Saturnino
o velho José Ferreira
que chegou sem Virgulino
dizendo: – O que combinarem
fiquem certos que eu combino.

Cornélio Soares, homem
mediador perspicaz
arrancou de Saturnino
uma promessa veraz
de que por ele haveria
uma duradoura paz.

No entanto não passou
de mero paliativo
porque Virgulino tinha
um gênio tão explosivo
que não aplacou as chamas
do seu fogo vingativo.

José Saturnino estava
trabalhando noite e dia,
com a filha de Nogueira
brevemente casaria
para tal finalidade
ele a casa construía.

O terreno de Nogueira
ficava um pouco afastado,
José construía a casa
com seu futuro cunhado
quando foi por Virgulino
visitado e avisado:

- Amanhã virei aqui
não para lhe visitar,
amigo José chocalho
e pode se preparar
polir as armas e vir
disposto para brigar.

Aquelas palavras ditas
por Virgulino Ferreira
lembraram até fanfarrões
bebendo em final de feira
porém continham a ira
de uma mão justiceira.

Foi esta a primeira luta
de Virgulino Ferreira
Já à feição de guerrilha
improvisada trincheira
respondendo ao fogo intenso
de Saturnino e Nogueira.

Nesta primeira batalha
o resultado obtido
é que Livino saiu
capenga e muito ferido
e o ódio entre as famílias
muito mais recrudescido.

Nova proposta de paz
por Cornélio apresentada
se não foi pelas famílias
prontamente rejeitada
teve vida muito curta
precocemente olvidada.

José Ferreira da Silva
na paz não tendo mais fé
reuniu todos os filhos,
eles, Maria e José
mudaram-se logo para
as terras de Nazaré.

Tal como as outras medidas
foram ineficientes
esta foi nula porque
os Saturnino Valentes
já contavam com os Nogueira
e mais fortes aderentes.

José Saturnino disse:
- Amanhã bem cedo eu vou
à Nazaré porque um
rapaz de lá me comprou
um cavalo, no entanto
ainda não me pagou.

Diz a razão que o confronto
seria mais que iminente;
ir à Nazaré seria
insultar publicamente
os Ferreira, em cujas veias
circulava um sangue quente.

Em verdade nesse tempo
o valente Virgulino
já saqueava comércio,
provocava desatino
incendiara a fazenda
do sogro de Saturnino.

José Saturnino e
Nogueira foram avisados
do perigo que corriam,
no entanto, bem armados
todos os conselhos foram
por eles ignorados.

Na hora em que Virgulino
e seus irmãos deram fé
dos Saturnino na feira
foram armados e a pé
expulsaram Saturnino
das terras de Nazaré.

Sob intenso tiroteio
ensurdecedor, cerrado
Saturnino caiu fora
cabisbaixo, envergonhado
disse ao velho em casa que
tinha sido tocaiado.

Reuniram voluntários
com um furor assassino
grandes apreciadores
da família Saturnino
para acabar de uma vez
a raça de Virgulino.

A sanha de quem seria
o capitão do cangaço
não admitia derrota,
não aceitava fracasso
na zona de eficácia
do seu poderoso braço.

Teve a família Ferreira
vitória tão expressiva,
tão esmagadora e tão
convincente e decisiva,
a quem a testemunhou
pareceu definitiva.

Mas o ódio não se apaga
no selvagem coração,
confrontos entre as famílias
nos dão a comprovação
de que a paz não seria
mais possível no sertão.

O velho José Ferreira
tristonho e desiludido
porque por causa dos filhos
vivia assim perseguido,
o sossego não seria
jamais restabelecido.

Por arte do capiroto
que o fogo do ódio atiça
um homem decente, honrado,
sem ambição ou cobiça
saber que seu próprio filho
é corrido da justiça.

Porém não tinha mais jeito
porque a vereda errada
que seus filhos escolheram
teria que ser trilhada
armando cilada torpe,
sofrendo torpe emboscada.

Atormentado, José
fez uma desesperada
mudança pra Mata Grande
em Alagoas, e dada
a distância poderia
ter a paz tão desejada.

Livino retomaria
sua vida de vaqueiro,
e Virgulino, além
de artesão, sanfoneiro
esqueceria as encrencas
levando um viver ordeiro.

Mas inesperada e grande
foi sua decepção,
ali morreu fulminada
de ataque do coração
Maria da Soledade
deixando desolação.

Desolado com a perda
de sua esposa querida
José Ferreira passou
o resto de sua vida
sem paz, com sua família
por volantes perseguida.

Como vaticinou o
andarilho conselheiro
de Canudos, que o nordeste
e mesmo o Brasil inteiro
em breve conheceria
o seu maior bandoleiro.

José ouviu Virgulino
lhe dizer, algo ofegante
que em seu encalço andava
a furiosa volante
de Alagoas, disposta
a ataque fulminante.

José aparentemente
ignorou o aviso
mas saiu em passos lentos
acabrunhado, indeciso
lamentando em seus rapazes
tanta falta de juízo.

Ensurdecedor tropel
por tiroteio mesclado
ouviu-se em torno da casa
com o triste resultado:
José numa grande poça
de sangue quente deitado.

Naquele sombrio dia
de tanta desolação,
de tanta revolta e ódio
nascia para o sertão
o nosso famigerado,
destemido Lampião.

Juntou-se ao grupo voraz
de Sebastião Pereira
seu mais feroz precursor
e assim os irmãos Ferreira
formaram a endiabrada
e mais cruel cabroeira.

O ódio, a vingança, a fúria
a vileza a tirania
do bandoleira iracundo
ninguém mais controlaria
incendiaria fazendas,
o pavor espalharia.

Lampião era a um tempo
venenosa caninana
e cordeirinho domado
capaz de ação humana
mas dentro de tais ações
a fúria da fera insana.

Fazia forró com moças
e rapazes reunidos
exigindo que os pares
dançassem todos despidos
enquanto ele e seus cabras
achavam graça, entretidos.

Visto aquele espetáculo
não parecia tão feio
mas o respeito exigido
somava-se ao receio
de que o forró findasse
num horrível tiroteio.

Porque se alguém faltasse
com um tico de respeito
Lampião autorizava
que dessem fim no sujeito
para que ninguém ousasse
repetir seu triste feito.

É claro que um par dançando
completamente despido
para o respeito integral
ser preservado e mantido
só com mortal ameaça
das armas de um bandido.

Com Sebastião Pereira
e Luís Padre, o irmão
reconduzidos à paz
por padre Cícero Romão
o grupo ficou entregue
às ordens de Lampião.

Em livros de outros autores
exaustivamente lidos
contam porque Virgulino
com os maiores bandidos
tiveram os nomes mudados
para alcunhas, apelidos.

Mais de duzentos combates
Lampião empreendeu
peito a peito, em campo aberto
e no dia que morreu
foi em covarde emboscada
que ele nem percebeu.

Quando percebeu foi tarde
para esboçar reação
pois a volante chegou
com a recomendação
de não cometer enganos,
assassinar Lampião.

Lampião foi um valente
como o foi também São Jorge
mas como o Santo, não tinha
consigo nenhum caborje
Lampião também não tinha
demo nenhum no alforje.

Criou o homem o chicote
infernalmente inclemente
para corrigir o erro
do sujeito intransigente,
Lampião foi um chicote
de Deus em forma de gente.

Nunca se viu englobados
num só vivente mortal
tanta sede de grandeza,
nunca sanha tão brutal,
o sentimento selvagem
bruto do bem e do mal.

Lampião seria capaz
de amar perdidamente
aos seus queridos irmãos;
de odiar cegamente
a quem o traísse, ainda
que fosse só com a mente.

No limiar deste século
houve o recrudescimento
do cangaço no nordeste
com o aparecimento
de Lampião, entre todos
talvez o mais violento.

Quando dizemos talvez
temos medo de engano
porque o homem do campo,
o pesquisador insano
mostraram de Lampião
seu lado bom e humano.

Só por Lampião ter sido
muito voluntarioso,
por ter tido, já adulto
a fama de corajoso
não eram razões concretas
para se tornar criminoso.

Para presente edição
foram relacionadas
obras por meticulosa
peneira crítica passadas
e delas só as verdades
foram selecionadas.

Defeitos nas várias obras
que pesquisamos não pomos
porque somos imperfeitos
e principalmente fomos
com as faltas inerentes
ao ser humano que somos.

Liderando muitas vezes
mais de cem homens armados
ao chefe servis, ordeiros,
por volantes odiados,
por fazendeiros temidos
por humildes respeitados.

Também protegidos por
sacerdotes importantes
evitando o choque com
famigeradas volantes
provocando um clima nunca
experimentado antes.

Envolvendo do nordeste
os mais renomados vultos,
homens de conduta dúbia
e supostamente cultos,
ora acoitando bandidos,
às vezes trocando insultos.

À criança indiferente
às coisas más desta vida
dizia a mãe: – Nossa vila
hoje será invadida.
Assim vivia a criança
num clima tenso envolvida.

Na igreja o padre nada
espiritualizado
vaticina o fim do mundo
num sermão tão demorado
que por si já representa
um desconto de pecado.

Mas na vida criminosa
de Virgulino não há
registro de uma só luta
travada no Ceará
pois seu protetor nasceu,
viveu e faleceu lá.

É comprovado e notório
que o grande capitão
guardava muito respeito
ao padre Cícero Romão
tido no nordeste como
padrinho de Lampião.

Igreja, seca e cangaço
geram inquietação
provocando em nossa alma
uma estranha sensação
desconhecida pra quem
nunca viveu no sertão.

Mulheres e cangaceiros
fizeram longa união,
portanto Maria Bonita
na vida do Lampião,
na história do cangaço
não constitui exceção.

Corisco teve Dada
mulher de amor vibrante,
Jararaca teve esposa,
Dois-de-Ouro teve amante,
Cruz Vermelha, companheira,
Roque e assim por diante.

Sendo por Maria Bonita
prontamente apelidada,
por Rainha do Cangaço
também cognominada
era por todos querida
e com temor respeitada.

Os nomes dos cangaceiros,
a completa relação
encontra-se no poema
escrito por nossa mão
intitulado: Corisco -
Sucessor de Lampião.

Só o nome Lampião
era por todos temido
pois fez mulher confessar
a falsidade ao marido
bastava que anunciassem
a presença do bandido

Os coronéis mais valentes,
os políticos mais ousados,
o juiz mais arrogante,
os mais cruéis delegados
na frente de Lampião
ficavam paralisados.

Se mencionar pudesse
aos leitores exigentes,
mais de duzentos combates
em lugares diferentes
nem mesmo vinte volumes
seriam suficientes,

O rastro negro e sinistro
que o capitão deixou…
não se conta os poderosos
que sua senha esmagou,
de sua inclemente fúria,
nem o humilde escapou.

O amor que tinha aos manos
não lembrava um assassino
e viu cair um a um
Antônio, depois Livino
e mais tarde Ezequiel
alcunhado Ponto Fino.

Quando Ezequiel saiu
duma batalha infernal,
tendo nela recebido
um ferimento mortal
Lampião, frio e sinistro
lhe deu o tiro fatal.

E disse num tom mesclado
de ódio, tristeza e dor:
- No dia que eu não tiver
um remédio salvador
façam o mesmo comigo
que me farão um favor.

Quando Antonio faleceu
Lampião sentiu bastante
deixou crescer o cabelo,
se tornou mais arrogante
e sua imagem sinistra
muito mais terrificante.

Quando o grupo do bandido
invadia um povoado
se dessem sem relutância
o tanto solicitado
não havia tiroteio
nem qualquer confronto armado.

O capitão vaidoso
de quando em quando pedia
jornal que falasse dele
por todo lugar que ia
sobretudo os que tivessem
a sua fotografia.

Da maneira coletiva
tratava bem os sequazes
umas vezes “os meninos”
outras vezes “meus rapazes”
dirigindo sempre a eles
as mais calorosas frases.

A prudência aconselhava
ao Capitão infernal
para nunca invadir
cidades do litoral
pra não botar em perigo
ele e o seu pessoal.

No ataque a Mossoró
em que saíra frustrado
disse que dali pra frente
só estava interessado
no sertão quente, e, às vezes
até mesmo esturricado.

Toda vez que seqüestrava
o filho dum fazendeiro
pedia pelo resgate
grande soma de dinheiro
do contrário, a sangue frio,
matava o prisioneiro.

Certa vez em Simão Dias
um distante povoado
foi por um agricultor
bondosamente avisado
que por cem cabras, estava
o povoado guardado.

Lampião disse: – Com cem
cabras meu grupo não pode -
Mas corisco gracejou,
num divertido pagode:
- Para cem cabras, compadre
basta simplesmente um bode.

Mas Lampião possuía
o modo de proceder:
- Sem certeza de vitória
não devemos combater,
depois da derrota é tarde
até para se arrepender.

Lampião só tinha um olho
mas não cansava em lembrar
que tinha de fechar um
ao ser preciso atirar
portanto não precisava
o luxo de ter um par.

Meio dia em ponto ele
reunia o pessoal,
orava gesticulando
para com o ritual
mostrar aos cabras que tinha
algo sobrenatural.

Quando o Sol agonizava
para os lados do poente
Lampião mais uma vez
se curvava reverente
às coisas da natureza
respeitoso, obediente.

Lampião e seus capangas
no combate violento
uivava como cachorro,
rinchava como jumento
provocando nos soldados
sombrio estremecimento.

Ele embora acalentasse
no peito grande saudade
dos pais, quando padre Cícero
se foi pra eternidade
foi que Lampião sentiu
a verdadeira orfandade.

Não viajava aos domingos,
parava pra descansar,
no meio da mata agreste
improvisava um altar
em torno do qual mandava
o grupo contrito orar.

Lampião dormia pouco
ele e o seu pessoal,
a não ser que o instinto,
o seu amigo leal
segredasse ao seu ouvido
um aviso especial.

Emílio Ferreira um
dos padres mais importantes
aconselhou Labareda
a capar os semelhantes
porém deixá-los com vida
por mais que fossem arrogantes.

Labareda até gostou
desse conselho sadio
porque não gostava mesmo
de matar a sangue frio
tal como viu um soldado
fazer com seu próprio tio.

Como viu Sabino um dia
tão mortalmente ferido
que pediu para ser morto
e Mergulhão, comovido,
pegou prontamente a arma
e atendeu seu pedido.

Com moedas de tostões,
de dois tostões e cruzados
Lampião fazia o bem
a muitos necessitados
principalmente aos mendigos,
aos cegos e aos aleijados.

Um dia a tarde caia
e o santo do Juazeiro
viu da casa onde morava,
do extremo do terreiro
seu mais ilustre afilhado,
o mais devoto romeiro.

Era Lampião que vinha
liderando um grupo armado
dos lados de Pernambuco
pelo padre convidado
para dar combate aos Prestes
cordialmente chamado.

Andava a coluna Prestes
pregando pânico geral
e possivelmente como
finalidade central
desestabilização
do governo federal.

Foi para conter tal fúria
que Lampião foi chamado,
na casa do repentista
João Mendes foi instalado
num sobrado onde ficou
com o seu grupo hospedado.

No confortável sobrado
do ilustre repentista
recebia autoridades,
dava esmola e entrevista
contando suas mais terríveis
façanhas a um jornalista.

Internacionalmente,
sobretudo no sertão
é sabido que a patente
honrosa de capitão
Virgulino recebeu
do padre Cícero Romão.

Conduzia Lampião
suplícios martirizantes,
ferros de marcar novilhos
para ferrar delatantes
que fossem denunciar
sua presença às volantes.

Quarenta anos de idade
dos quais vinte ou mais de lida
no cangaço impiedoso
e enquanto ele com vida
foi a férrea disciplina
dentro do grupo mantida.

Nessas alturas o audaz
bandoleiro do cangaço
mostrava nas faces rudes
indisfarçável cansaço
e cairia brevemente
sem entregar-se ao fracasso.

Ele que amou febrilmente
a uma mulher casada
praticando amor selvagem
no pé das moitas deitada
companheira tão valente
quanto fiel e ousada.

O cangaceiro gostava
ouvir orgulhoso assim:
aqui caiu Zabelê,
aqui tombou Zepelim,
aqui morreu Juriti,
aqui Roque teve fim…

Mil novecentos e trinta
ocorreu a divisão
do grupo em diversos bandos
prestando, em reunião
contas ao supremo chefe
do cangaço: Lampião.

No ano de trinta e oito
ninguém sabia no sertão
notícia do bandoleiro,
parece até que o chão
para sempre havia tragado
o famoso Lampião.

Notícias à sua cerca
eram tão desencontradas,
algumas já como lendas
por muita gente contadas
que deixavam as volantes
muito desorientadas.

Uma noite finalmente
ele reapareceu
a dezessete de abril
de trinta e oito se deu
seu reaparecimento
que o nordeste estremeceu.

Três meses e onze dias
depois da alegre incursão
pelo Rio São Francisco
o bando do Lampião
parou em Angicos para
desfazer-se da exaustão.

Depois de tanta armadilha
pelas volantes armada,
de tanta vã tentativa
por Virgulino frustrada
Angicos seria o fim
da criminosa jornada.

A volante de Bezerra
pertencia ao batalhão
comandada por Lucena
de Albuquerque Maranhão
solenemente incumbida
de acabar Lampião.

E algo estranho dizia
ao experiente ouvido
do tenente João Bezerra
que o bandoleiro temido
estava com o seu bando
naquela mata escondido.

Margeando o velho Chico
a volante caminhava,
o tenente João Bezerra
silêncio recomendava,
os nervos ficavam tensos
à proporção que avançava.

Pouco depois João Bezerra
dividiu sua volante
e nomeando ali para
cada grupo um comandante
estreitando o cerco para
um ataque fulminante.

A vinte e oito de julho
era ainda madrugada
somente Maria Bonita
se encontrava acordada
recebendo à queima roupa
a fulminante rajada.

Num movimento instintivo
tantas vezes repetido
Lampião sacou as armas
mas mortalmente atingido
dobrou-se ficando sobre
as próprias armas caído.

Depois da luta em que foram
dizimadas tantas vidas
lhes deceparam as cabeças
e depois de recolhidas
em latas de querozene
foram todas conduzidas.

Nascido em noventa e oito
quarenta anos viveu,
a vinte e oito de julho
quando o dia amanheceu
de trinta e oito, em Angicos
Virgulino faleceu.

FIM

………………………………………………………………………………………………….

Nunca o mundo ocidental
na atual geração
tinha esbugalhado os olhos
com tanta estupefação
como ao ler este poema
que se encontra em sua mão.

Rufino Dias Mesquita
algo longe refletia
porém era muito grosso
pra sentir a poesia
que emanava de tudo
que na fazenda existia.

Pedro era o primogênito
do velho casal Mesquita
o segundo Salomão
a terceira Isabelita
serpente que completava
aquela prole maldita.

O velho Rufino tinha
esquisita envergadura
por pouco mais ou por nada
submetia à tortura
um filho se não o visse
com peixeira na cintura.

Voando chispas de ódio
exclamava enfurecido:
– Andar sem armas é o mesmo
que andar desprotegido
pois o homem sem peixeira
é moralmente despido.

A cabra velha dizia:
– Bata neles, não se amoque,
ficando grandes arrancam
antes que você os toque
seu cavanhaque com os cacos
do seu próprio corrimboque.

No entanto Salomão
ao pai e a Pedro dizia:
– Não gosto de andar armado
para mostrar valentia
a arma esconde somente
nossa grande covardia.

Disse Rufino com ódio:
– Olha maldito pixote
eu não vou ficar ouvindo
falar miolo-de-pote
vai receber a resposta
na ponta do meu chicote.

Aí levantou o braço
ameaçadoramente
e descarregou um golpe
tão duro e tão contundente
que Salomão emitiu
um grito agudo, estridente.

E Salomão percebendo
o seu pescoço ferido
elevou a mão direita
ao pé do seu próprio ouvido;
sentiu mais dor no orgulho
que no local atingido.

Porém quando viu Rufino
novamente o braço erguer
disse para o pai: — Não tente
segunda vez me bater
porque não teria tempo
sequer de se arrepender.

Tais palavras foram ditas
com tanta força moral
que Rufino reprimindo
o choque emocional
desceu lentamente o braço
à posição vertical.

Girou sobre os calcanhares
exibindo ao filho as costas;
não esperando do outro
nem revide nem respostas
ambos saíram dali
para direções opostas.

Salomão no seu reduto
ficou muito pensativo
nunca o chicote do pai
fora tão inofensivo
se havia milagre, um deles
era encontrar-se vivo.

Para Isabelita e Pedro
Rufino estava dizendo:
– Há coisas em Salomão
que eu morro e não entendo
hoje tive de esforçar-me
para não ficar tremendo.

Isabelita lhe disse:
– Você de fato está roxo
mas não pense por favor
que Salomão é o coxo
se você não o matou
é porque é muito frouxo.

O velho quis revidar
porém ficou sem ação
porque sua esposa disse:
– A menina tem razão
guarde a sua valentia
para enfrentar Salomão.

Clara chamava-se a velha
de brutalidade rara
tinha torpe o pensamento
a alma negra, ignara
mas justificava o nome
porque tinha a pele clara.

A atitude tomada
pelo jovem Salomão
foi a de dali pra frente
nem mesmo do seu irmão
não aceitar mais calado
nenhuma provocação.

Lembrou que Pedro lhe dera
tantas surras na cidade
justamente na presença
de jovens da sua idade
agora teria o troco
bastava oportunidade.

Já tinha dezesseis anos
idade suficiente
para um rapaz no sertão
pensar e agir livremente
e ter personalidade
totalmente independente.

O ódio que a família
nutria por Salomão
era tão indisfarçável
que em dada ocasião
mandaram-no ir embora
sem qualquer contemplação.

Mas por ser pequeno ainda
resignou-se em ficar
até o dia em que o pai
certamente sem pensar
que ele já estava grande
quisera lhe castigar.

No povoado até mesmo
a família de Custódio
já tinha conhecimento
daquele estranho episódio
como os pais tinham ao filho
vil e rancoroso ódio.

Enquanto Pedro tomava
um tronco no bar do Sena
Salomão com a namorada
retornava da novena
e passou em frente ao bar
ao lado de sua pequena.

Era Madalena filha
de Custódio de Alencar
e quando se aproximavam
daquele maldito bar
viram o perigo velado
que não podiam evitar.

Infelizmente não foi
somente pressentimento
pois quando passavam em frente
ao estabelecimento
a voz de Pedro Mesquita
lhes disse grave: — Um momento.

Salomão parou de chofre
mas disse à sua querida:
– Eu tenho de evitar
de tornar-me um fratricida
porque seria estragar
o resto da minha vida.

Salomão falou a Pedro:
– Homem deixe de besteira
em troca de tais palavras
recebeu uma rasteira
e risos porque caiu
numa posição grosseira.

Antes que se levantasse
recebeu novas pernadas
caiu outra vez ouvindo
um coro de gargalhadas
já tinha a roupa rompida
e as costas ensangüentadas.

Pedro no entanto teve
a desconsideração
de não avaliar bem
a força de Salomão
disposto a vender bem caro
mais aquela humilhação.

E Salomão ao erguer-se
já tinha um golpe estudado
que se fosse com sucesso
em Pedro bem aplicado
o deixaria certamente
muito desmoralizado.

Assim quando Pedro quis
nova pernada aplicar
Salomão pegou a perna
do irmão em pleno ar
este arrebentou os dentes
no piso duro do bar.

O golpe foi aplicado
com precisão estupenda
quando os circunstantes viram
Pedro perdendo a contenda
houve um sepulcral silêncio
que tomou conta da venda.

Enquanto Pedro continha
a sua ira impotente
Salomão lhe disse: — Nunca
me insulte publicamente
e saiu com a namorada
despreocupadamente.

Na divisa das fazendas
de Custódio e de Rufino
Pedro amanheceu morto
por um estranho assassino
que mudou radicalmente
de Salomão o destino.

Pedro estava realmente
ali na relva estendido
pois nele um tiro certeiro
tinha sido desferido
certamente o assassino
tinha desaparecido.

Coisas do não-sei-que-diga
porque a realidade
é que Salomão e Pedro
duelaram na cidade
Salomão teria portanto
toda culpabilidade.

Foi Madalena quem viu
Pedro estendido no chão
conquanto ainda reinasse
a total escuridão
saiu apressadamente
para avisar Salomão.

Salomão pensando na
má receptividade
que teria em sua casa
ao retornar da cidade
dormiu ao pé da cancela
com muita emotividade.

Foi ali que Madalena
encontrou seu namorado
foi logo dizendo a ele:
– Pedro foi assassinado
fuja imediatamente
se não quer ser condenado.

No peito de Salomão
reinava um coração nobre
portanto estimava a Pedro
de sentimento tão pobre
– Eu fugindo o assassino
de Pedro ninguém descobre.

– … Além do mais – concluiu
fugir dá mal resultado
pois nosso duelo foi
por todos presenciado
assim todos pensarão
que sou de fato culpado.

– O que você diz é certo
mas não há outra saída
porque a sua família
vai ficar enfurecida
que você dificilmente
continuaria com vida.

Salomão não tinha mesmo
tempo para refletir
apesar de não achar
ser elegante partir
o caminho mais prudente
que encontrou foi fugir.

No lugar em que o Sol
se ergueria radiante
o céu estava pintado
de ouro naquele instante
a moça viu o rapaz
desaparecer distante.

Quando a fazenda acordou
no natural reboliço
cada um com sua enxada
se dirigia ao serviço
notaram além de Rufino
dos rapazes o sumiço.

Rufino chegou dizendo:
– Pedro esteve a noite inteira
farreando na cidade
com uma vil cabroeira
despertou morto no campo
de vegetação rasteira.

Alguém que vinha chegando
com um cabresto na mão
disse: — Pedro, na cidade
duelou com Salomão
sendo humilhado com vaias
ao ser lançado no chão.

Todos se olharam num misto
de tristeza e de rancor
porque ficara tão claro
daquele crime o autor
o inquieto Rufino
sentia ódio e pavor.

Pavor que ele no entanto
sabia dissimular
fagulhas de intenso ódio
se lia no seu olhar
pois algo muito secreto
ele tinha que ocultar.

Um grupo de homens rudes
por Rufino liderado
foi ao local onde Pedro
tinha sido assassinado
trazer o corpo pra ser
na casa grande velado.

Como se aquele cadáver
pudesse ouvir sua voz
Rufino fitou o corpo
dizendo num tom feroz:
– Serei pra quem te matou
o mais desumano algoz

Porém tais palavras eram
ocas de convicção
pois não reuniu os cabras
para uma perseguição
ficou ruminando o ódio
mas sem tomar decisão.

Vamos tentar encontrar
Salomão neste momento
e até mesmo mergulhar
no seu próprio pensamento
por ser ele na história
quem dá vida e movimento.

Bem antes que o crepúsculo
trouxesse o sol matutino
Salomão já galopava;
conquanto sem ter destino
já estava a várias léguas
da fazenda de Rufino.

Embora o sensato fosse
realmente ter fugido
algo conciliador
dizia no seu ouvido
que ficasse sossegado
que não seria perseguido.

Ao cabo de meia lua
de andança ininterrupta
Salomão parou ao pé
de uma montanha abrupta
e pensou em sua família
vil, traiçoeira e corrupta.

Tudo ficará pra trás
ali se sentia seguro
pois não seria perseguido
pensaria no futuro
pois seu passado foi negro
infame, padrasto e duro.

Conversou com o cavalo
antes de pegar no sono
e este compreendendo
o pensamento do dono
respondeu equinamente:
“Eu morro e não te abandono.”

E mergulhando no tempo
vamos achar Salomão
transpondo a Ibiapaba
passando por Boqueirão
um abismo tão profundo
de gelar o coração.

12 respostas a CORDEL

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  10. Fellipe disse:

    Sou admirador dos cordeis e seus anexos…

    Parabéns pela pagina, e pela escolha dos textos!!!!

    Fellipe Alves Pereira

  11. Maria Rosário Pinto disse:

    Amigo,
    Adorei a exposição. Como já disse, seus quadros retratam um caráter particular da vida urbana carioca, mas que torna-se UNIVERSAL, e, é este o verdadeiro objetivo de uma obra de arte. PARABÉNS! mais uma vez. Espero que venham outras exposições para que você possa REAVIVAR o SUCESSO já conquistado.
    Um abraço,
    rosário

  12. J. Victtor,
    Parabéns pelos belo romances.
    Bjs,
    Rosário

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